A PALAVRA DE DEUS NA LITURGIA (Márcio R. Motta)

23º. Domingo do Tempo Comum - 04 de setembro A comunidade cristã é continuadora da presença e da ação de Jesus no mundo. Grande responsabilidade. Por isso seu comportamento, a mística orientadora de sua  vida tem sua inspiração no ensinamento, nas ações de Jesus. Continuando o ensinamento da parábola do bom pastor, que deixa as 99 ovelhas e vai a procura daquela que se desgarrou, o Evangelho deste domingo (Mt 18,15-20) nos ensina que o irmão que errou deve ser tratado com imensa caridade. Não se deve espalhar o seu erro, mas ele deve ser procurado pessoalmente para que,  através do diálogo fraterno, tome consciência do mal cometido e se disponha a mudar. Em caso de recusa, outras atitudes convenientes só devem ser tomadas com justiça, sem arbitrariedade, com os corações abertos ao amor e ao perdão, buscando a verdadeira reconciliação, pois Jesus “veio para salvar o que estava perdido”. A comunidade recebeu de Jesus o mesmo poder dado a Pedro – ligar e  desligar – mas no cumprimento perfeito da Lei: o amor mútuo. “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei” (2ª. Leitura Rm 13, 8-10). Corrigir os que erram é sinal de verdadeiro amor, é uma das obras de misericórdia, segundo nosso antigo e atual catecismo. Auxiliar o irmão a superar seus defeitos e limitações, ajudá-lo a crescer, através de todas as formas de encorajamento, é obra de amor, responsabilidade da comunidade e compromisso pessoal de cada cristão. Constituídos como profetas, pelo nosso batismo, recebemos a missão de ser sentinelas, vigias, responsáveis pela vida, salvação de nossos irmãos (1a. Leitura Ez 33,7-9). 24º. Domingo do Tempo Comum - 11 de setembro A primeira Leitura deste domingo (Eclo 27,33-28,9) antecipa para nós a doutrina do Pai-Nosso. Todos temos necessidade do perdão de Deus. E é na prática da misericórdia para com nossos irmãos que alcançaremos o perdão de Deus. No Evangelho (Mt 18,21-35) Mateus revela a situação concreta da vida da comunidade, constituída de pessoas humanas, passíveis de toda fraqueza inerente à própria natureza. Pessoas frágeis, que sofrem as conseqüências das tentações humanas: busca de riqueza e poder, atritos e ofensas e toda a forma de egoísmos. Todas essas fraquezas impedem a convivência na fraternidade. O remédio para esse mal é o perdão, que é fruto do amor. Qual o limite do perdão? – O perdão sem limites. A medida do perdão é o perdão de Deus, ou seja, não tem medida. É em nome do perdão que Deus nos concedeu que devemos perdoar os nossos irmãos. A parábola do servo que não soube compartilhar o perdão que recebeu de seu senhor é um ensinamento completo do sentido e da necessidade do perdão fraterno, que possibilita a cada um  fazer parte do mundo novo, o Reino que Deus quer estabelecer entre nós. O perdão pode melhorar qualquer relação humana e ele será efetivo na vida de cada um de nós na medida em que vivermos e morrermos com Cristo (2ª. Leitura: Rm 14,7-9). 25º. Domingo do Tempo Comum  - 18 de setembro Ao longo de toda história, principalmente no mundo dito civilizado, reinou entre os homens uma enorme desigualdade social. Houve sempre  luta por privilégios, a  busca do primeiro lugar. Até mesmo diante de Deus nos colocamos à frente, julgando-nos mais merecedores do que os outros. Arvoramo-nos em juizes de Deus: julgamos ter direito a uma recompensa maior, porque somos bons, trabalhamos desde cedo em sua vinha.  Mas a palavra de Deus nos adverte: “Meus pensamentos não são como vossos pensamentos, e vossos caminhos não como os meus caminhos, diz o Senhor” (1ª. Leitura: Is 55,6-9). O projeto de Deus é a vida para todos. A justiça divina supera a justiça dos homens, porque age com misericórdia, amor e bondade. Os operários da última hora eram tão necessitados quanto os da primeira hora, ou talvez mais – por isso recebem o mesmo salário (Evangelho: Mt 20,1-16a). A salvação é obra de Deus que a todos chama na hora em que se deixam encontrar. Sua aliança conosco é dom gratuito de seu amor, é graça. Mas também exige nossa resposta, na liberdade. A lógica de Deus é diferente da lógica dos homens. Há uma inversão de valores. Diferente do pensamento do mundo, Jesus proclama felizes os pobres, os que choram. Em geral o que para o mundo é lucro, é perda para Deus. Quem quer salvar sua vida, vai perdê-la. O que para os homens está em primeiro lugar, para Deus está em último. E São Paulo nos ajuda a compreender esta lógica: “Para mim o viver é Cristo, o morrer é lucro (2ª. Leitura: Fl 1,20c-24.27a). O evangelho deste domingo revela-nos com clareza  a preferência pelos pobres, os humildes, os últimos. A benevolência de Deus faz deles os ricos, os eleitos, os primeiros no Reino dos Céus. A parábola, como advertência aos judeus, os primeiros chamados por Deus, mas que corriam o risco de se tornarem os últimos pela mesquinhez de sua justiça, é também uma advertência para nós hoje. É preciso eliminar do meio de nós toda a inveja e ressentimentos. É preciso buscar os caminhos de Deus – a justiça, a misericórdia, o amor, a bondade, a partilha dos bens. Que não haja em nossas comunidades primeiros e últimos, mas verdadeira fraternidade. Que todos nos empenhemos por um mundo sem exclusões, e de vida para todos. 26º. Domingo do Tempo Comum - 25 de setembro O evangelho deste domingo continua tratando da rejeição do povo judeu que não quis aceitar Jesus. Os sacerdotes e os anciãos do povo, ricos e poderosos, que se julgavam justos, excluíam do direito à salvação os publicanos, prostitutas e pecadores. No entanto foram estes que acolheram a mensagem de Jesus. Com a parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32), Jesus nos ensina que o que conta para Deus não são as aparências, as boas intenções, as palavras, mas a prática de nossa vida. As palavras, as ideologias podem enganar. “Nem todo aquele que diz: Senhor, Senhor entrará no reino dos céus”(Mt 7,21).  Nossa pertença sociológica à Igreja, porque fomos batizados, até mesmo nossa participação em práticas religiosas podem ser desprovidas de sentido, de valor, se não estiverem revestidas da verdade,  pelas obras de nossa vida. O que o evangelho exige de nós é a verdadeira conversão, que nos leva a viver uma perfeita  integração entre fé e vida. O “sim” de nossa fé deve estar sempre acompanhado do “sim” de nossa vida. O Reino de Deus não é dos que se consideram justos, mas dos pecadores que crêem e fazem penitência. A conversão, as boas obras vencem a maldade do pecado e obtêm o perdão e a salvação (1ª. Leitura: Ez 18,25-28). È nesse sentido que São Paulo exorta os cristãos de Filipos a ter “o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus”: união, amor, harmonia, humildade, capacidade de doação e serviço aos outros, a exemplo de Cristo, que “humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” 2ª. Leitura: 2 Fl 2,1-11).

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