A PALAVRA DE DEUS NA LITURGIA (Márcio R. Motta)

5º. Domingo do Tempo Comum - 5  de Fevereiro O Evangelho deste domingo (Mc 12,29-39) narra que Jesus, saindo da sinagoga, vai até a casa de Simão, onde cura sua sogra e também muitos doentes que são levados a ele, e expulsa os demônios. A realização de milagres caracteriza a nova prática vivida por Jesus. Mas Jesus não é um milagreiro. Os milagres têm um sentido simbólico que aponta para sua proposta que liberta e gera vida, ao contrário da proposta da sinagoga e do Templo, isto é, a proposta da religião oficial dos judeus, que era excludente e trazia sofrimentos e morte para o povo. Quem é Jesus? – É aquele que liberta as pessoas e expulsa todos os demônios, isto é, destrói a força dos detentores do mal, que impedem a existência de uma vida feliz para todos. Para aqueles que vivem uma vida de carências e de sofrimentos, como Jó (1ª. Leitura: Jó 7,1-4.6-7), Jesus vem trazer a garantia de que todo o mal será superado pela sua ação libertadora. Os milagres realizados por Jesus são gestos parciais de libertação, que apontam para a verdadeira e plena libertação que ele vem nos trazer por sua morte e ressurreição. Algumas idéias aparecem importantes neste evangelho: - Deus não se deixa aprisionar no Templo, na sigoga e nem se faz refém de sistemas religiosos. Jesus deixa a sinagoga e é numa casa que realiza o milagre. Deus se faz presente na casa, no lar, onde acontece a vida da família, no convívio do amor fraterno, na comunhão de vida. Atualizando em seu tempo a prática de Jesus, as primeiras comunidades cristãs adotaram as igrejas domésticas, as comunidades de vida, como lugar privilegiado para irradiar  a mensagem da vida nova, o anúncio do Evangelho. - Beneficiada pela cura, a sogra de Simão se levantou e começou a servi-los. Quem é Jesus? – É aquele que nos faz levantar de nossa imobilidade e caminhar com nossas próprias pernas e propõe que nossa resposta agradecida a seu gesto de amor  se traduza numa vida de serviço em favor dos irmãos. - Na manhã seguinte Jesus se retira a um lugar deserto para orar. A oração é a comunhão com o Pai, a fim de compreender o seu projeto e ser fiel à missão que dele recebera. - Por isso Jesus se dirige a outros lugares, para anunciar a Boa Nova, pois foi para isso que Ele veio. Não cede à tentação da fama, da ostentação do seu poder, do messianismo terreno, mas busca cumprir a vontade do Pai. Assim também o Apóstolo Paulo, seguidor fiel de Jesus, modelo de todo o agente de pastoral, não busca privilégios e glória, mas faz do anúncio do Evangelho uma obrigação decorrente de seu compromisso com Cristo (2ª. Leitura: 1Cor 9,16-19.22-23). Salmo responsorial: “Louvai a Deus, porque ele é bom e conforta os corações”  (Sl. 146). 6º. Domingo do Tempo Comum - 12 de Fevereiro O leproso em favor de quem Jesus realiza o milagre da cura (Evangelho: Mc 1,40-45) representa todos os marginalizados, os doentes, pobres e humildes, vítimas das leis religiosas e da tradição dos judeus. Especialmente os leprosos, considerados impuros e pecadores, eram condenados a viver fora do convívio da comunidade. Eram obrigados a trajar roupas andrajosas, apresentando aspeto repugnante, para que ninguém deles se aproximasse, pois aqueles que neles tocassem também se tornavam impuros (1ª. Leitura: Lv 13,1-2.44-46). Ao curar o leproso, Jesus não apenas está lhe restituindo a saúde física, mas está recuperando sua dignidade, promovendo integralmente sua pessoa, devolvendo a ele o direito de viver inserido no convívio social, fraterno e justo, fundamental para uma vida saudável e feliz. Cheio de compaixão, tocando no leproso, Jesus condena as leis injustas dos judeus e ensina a prática do amor que deve a todos acolher sem nenhuma discriminação. Nesse sentido São Paulo recomenda aos cristãos de Corinto  que não discriminem os fiéis que usam ou não as carnes oferecidas nos cultos pagãos: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não sejais motivo de tropeço para ninguém” (2ª. Leitura: 1Cor 10,31.11,1). Quem é Jesus? – É aquele que veio romper os esquemas de uma religião que privilegiava os poderosos, excluindo os pobres do convívio social. Jesus é aquele que veio para salvar a todos, principalmente aqueles que o mundo dos privilegiados havia excluído, roubando-lhes a vida. Quem é Jesus? – É aquele que nos toma pela mão, carrega “sobre si nossos sofrimentos” e deles nos liberta definitivamente. A prática de Jesus não deve ser coisa do passado, mas continuada e atualizada nas atitudes de todos nós cristãos. Por que ainda hoje e, muitas vezes, bem próximos de nós continuam sofrendo muitos leprosos. Quem são eles? – pessoas desamparadas à margem da vida, pela doença e falta de recursos mínimos que lhes garantam o direito de viver dignamente: idosos e crianças abandonadas, deficientes, analfabetos, desempregados, fracassados, drogados, ex-detentos e tantas pessoas que não são consideradas produtivas pela sociedade capitalista e nem consumidoras de seus produtos. Salmo responsorial: “Sois, Senhor para mim, alegria e refúgio” (Sl 31). 7º. Domingo do Tempo Comum - 19 de Fevereiro Quem é Jesus? – É aquele que veio trazer um ensinamento novo. O ensinamento dos doutores da lei e dos fariseus, que faziam da sinagoga o seu reduto, marginalizava grande massa do povo, os pobres, por eles condenados como pecadores. E ensinavam que as doenças eram castigo de Deus por causa dos seus pecados – não guardar a tradição, não observar os preceitos legais, que eles mesmos lhes impunham. Jesus traz um ensinamento novo e faz da casa o lugar do acolhimento, do aconchego, o ambiente onde reúne as multidões.  Convive com os desprezados pelo sistema religioso da sinagoga e do Templo. Para essa multidão anuncia a palavra: seu ensinamento é acompanhado de sua prática libertadora. As doenças, os males que afligem a vida do povo não são castigo de Deus. Têm sua raiz na injustiça, na falta de solidariedade e de fraternidade. Os doentes não são pecadores, mas vítima desse sistema injusto. Devem ser acolhidos e não discriminados. Quem é Jesus? – É aquele que vem com amor e poder de Deus. Acolhe com amor e misericórdia o homem paralítico e aqueles que são solidários com ele, realizando sua cura. É aquele que vem para destruir o mal em todas as suas raízes, por isso tem o poder do Pai para perdoar os pecados (Evangelho: Mc 2,1-12). Deus não responde com castigo aos pecados do povo. Ao contrário responde com misericórdia e perdão (1ª. Leitura: Is 43,18-19.21-22.24b-25). Por isso libertou seu povo do jugo da escravidão da Babilônia e continua libertando, na pessoa de Jesus, a todos os que são aprisionados pelos sistemas injustos que impedem a vida;. A Igreja, todos nós cristãos, somos chamados a continuar a prática de Jesus – para gerar mais vida para a humanidade, através do “sim” a Deus (2ª. Leitura: 2Cor 1,18-22). Salmo responsorial: “Curai-me, Senhor, pois pequei contra vós” (Sl 40). 1º. Domingo da Quaresma - 26 de Fevereiro A maldade se alastrara no mundo e Deus manda o dilúvio. Mas Deus é o Deus da vida. Após o dilúvio faz aliança com Noé e seus filhos, prometendo não mais destruir a terra. O arco-íris é o símbolo dessa aliança, do compromisso de Deus de preservar a vida da humanidade e de todos os seres criados. Com Noé, homem justo, Deus recria o mundo, fazendo nascer uma nova humanidade purificada pelas águas do dilúvio (1ª. Leitura Gn 9,8-15). Logo após receber o Batismo, investido pelo Espírito Santo e confirmado como filho de Deus, Jesus retira-se para o deserto e lá permanece por quarenta dias. Vence a tentação do demônio e dá início ao anúncio do Evangelho: Convertei-vos e crede na Boa-Nova” (Evangelho: Mc 1,12-15). Quaresma – tempo propício de apelo à conversão, de empenho na mudança de rumo de vida para aderir aos valores do Reino de Deus. O período de quarenta dias não é o tempo cronológico, mas tem sentido simbólico e teológico. Recordam os quarenta dias de duração do dilúvio. Os quarenta anos de peregrinação do povo de Deus pelo deserto até chegar à terra prometida. Os quarenta dias de caminhada de Elias até chegar ao Horeb, à montanha de Deus, a fim de continuar sua missão de restaurar a fé do povo de Israel. Jesus permanece quarenta dias no deserto e é tentado por Satanás, o adversário. O deserto não é lugar geográfico, mas o lugar do encontro com Deus, longe do centro do poder político-religioso (Templo-sinagoga), adversário  do projeto do Reino. Jesus vence as tentações, isto é, deixa-nos o ensinamento da necessidade de dominar os apelos à satisfação de nossos instintos egoístas e de repelir os sistemas de poder que impedem criação de uma humanidade nova, pautada nos valores do Reino de Deus. Sustentado por Deus, dá início à sua missão de anúncio do Reino, na total entrega e fidelidade ao Pai. O lugar de sua atividade não é Jerusalém, o centro do poder, mas a Galileia, o lugar dos pobres, dos marginalizados. Por nós ele se fez pobre. Anuncia que “o Reino de Deus está próximo”, pois através de sua prática, em todos os seus gestos libertadores, Deus vai construindo a nova humanidade, o seu Reino. Pensar no Reino Deus como uma realidade possível, exige de nós uma fé ativa e constante busca da conversão, sustentados pela força de sua graça: “Convertei-vos e crede nos Evangelho”. Como as águas do dilúvio purificaram a humanidade e fizeram nascer uma nova criação, assim, purificados pela água do Batismo, fomos transformados em novas criaturas e, mediante nosso compromisso, aliança com Cristo, seremos seus instrumentos para que uma nova humanidade se faça realidade e tudo seja submetido ao poder vivificante de Deus (2ª. Leitura: 1 Pd 3,18-22). Salmo responsorial: “Verdade e amor são os caminhos do Senhor” (Sl 24).

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