Abc da Liturgia

Graça

Vamos abordar brevemente o tema “graça” numa perspectiva bíblica. Começar pela bíblia é sempre um bom caminho para toda boa teologia. O termo hebraico correspondente é “hen” (lê-se com o agá aspirado, como nas nossas palavras iniciadas por erre!). O significado do fundo da palavra “hen” não é exatamente o mesmo da palavra grega “cháris” (este “ch” também se lê aspirado!) e da palavra latina “gratia”. Essas duas palavras falam da qualidade que tem alguém ou algo que suscita prazer: Que graça de menina! Ela tem uma graça especial! Que graça de vestido! Aqui, o acento recai sobre a pessoa ou a coisa... agraciada, graciosa, gratificada. A palavra “hen” não fala propriamente da graça que alguém ou algo tem, mas do gesto benévolo de inclinar-se (em hebraico, “chanan”), de voltar-se para, de debruçar-se daquele ou daquela que dá graça. O acento, aqui, é posto na fonte bondosa e benevolente do bem que é dado a outrem. “Hen” é, consequentemente, favorecimento, benevolência, complacência. Fala-se, neste sentido, do “hen” do rei, do pai, do esposo, do pastor... de Deus. “Hen” é atitude sobretudo de Deus! A graça, portanto, é fundamentalmente a livre doação de Deus. O ser humano não pode pretendê-la, merecê-la, gabar-se dela. Não corresponde ao mérito, não se baseia num direito: não se alcança por alguma ação. É dom livre, imerecido, gratuito. Isso: gratuito. Tocamos aqui o coração da revelação de Deus no Antigo e no Novo Testamento. Deus é amoroso e misericordioso, bondoso e cheio de graça, magnânimo (tem um ‘alma’ grande!), longânime (tem uma ‘alma’  longa e larga, grande como coração de mãe, generosa, paciente!). A história da salvação – que é também história de revelação – é a progressiva realização desta vontade de “graça” que Deus manifesta na criação e na aliança. “Hesed” (termo hebraico que poderíamos aproximadamente traduzir por “fidelidade”) é o comportamento segundo a aliança, de acordo com a aliança, coerente com a aliança, fiel à aliança. Aplicado a Deus, é “graça”. Também a palavra hebraica “rahamim” fala da graça. É o amor de compaixão, o amor que sente; o amor de misericórdia, o coração que se debruça sobre a miséria – física ou espiritual, moral ou religiosa – em que o outro se encontra. “Rahamim” vem de “rehem”, o ventre materno, as entranhas maternas. “Fiz das tripas o coração”, diz a mãe. “Rahamim”, portanto, é a atitude benevolente de Deus em relação ao pecador. A “graça” de Deus para com o pecador! Em Jesus Cristo “a graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os homens” (Tt 2,11). A graça de Deus se encarnou, tomou rosto humano, exprimiu-se em presença, palavras, atitudes, comportamentos, gestos humanos. A graça se “ humanizou” para, divinizando-os, “humanizar” o homem e a mulher. Jesus é a graça de Deus na nossa carne, na nossa vida, na nossa história, para abrir-nos, de dentro, para a vida de amor e doação – de graça – do próprio Deus. A palavra “graça” propriamente não aparece na boca de Jesus. Mas aparece – isso é o que conta, palavra não dita, mas vivida e feita – com toda clareza na sua missão, no seu ser e no seu fazer. No seu “inclinar-se”, no seu “voltar-se”, no seu “dar-se” aos pobres, aos pequenos, aos doentes, aos pecadores, aos marginalizados, aos excluídos. Até a entrega suprema de sua vida em resgate de todos (Mc 10,45). Nesta ação de libertação e salvação – de redenção mesmo – acontecida uma vez por todas, chegou ao seu pleno cumprimento  a história da salvação – que é sempre também história de revelação – dos homens e das mulheres pelo  amor generoso, gratuito e misericordioso de Deus. “A lei foi dada por meio de Moisés; a  graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). João desenvolve o tema da “graça” em termos de amor é vida; Paulo desenvolve o mesmo tema em termos de “graça” e “justiça” e, num sentido, derivado, “justificação”. A justificação do pecador – o seu ser aceito e amado e acolhido por Deus – cão é conquistável por ele (por nós!) mediante as suas (as nossas!) obras, pelo cumprimento da Lei, mas unicamente por meio da fé na autodoação ou autocomunicação de Deus que nos é oferecida livre, gratuita e amorosamente na ação libertadora, salvadora e redentora de Cristo. Esta graça não é uma realidade exterior ao ser humano, mas é nos comunicada realmente e nos transforma efetivamente. Em Cristo, pelo Espírito somos feitos e de fato somos novas criaturas.

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