Domingo de Pentecostes

(Jo 20,19-23). Junto com a celebração da Páscoa, um dos momentos mais fortes da vida religiosa de Israel era reviver a dimensão do caminho, suas etapas, seus momentos fortes. Tudo isso era celebrado através de um rito que, provavelmente, os hebreus aprenderam das liturgias egípcias: as peregrinações. Eram festas marcadas pela alegria. Eram realmente festas! O salmo nos descreve bem os sentimentos de um hebreu que podia celebrar sua peregrinação: "Que alegria quando ouvi que me disseram: “vamos à casa do Senhor”, e agora os meus pés se detêm, Jerusalém, em tuas portas...!” (Sal 122,1). Também a festa de Pentecostes, celebrada cinquenta dias após a Páscoa, era uma festa de peregrinação. Para um povo que havia encontrado a própria identidade caminhando no deserto ao lado de seu Libertador, nada mais podia expressar o encanto de descobrir-se como “povo” do que reviver ritualmente o que significa “caminhar com Jahvé”. De fato, foi aderindo à proposta feita por Deus pelas mãos de Moisés, que Israel aprendeu a arte de “caminhar com” alguém. Assim fazendo, aquele grupo descobriu-se não mais como um grupo de Semitas que se deslocava pelos vales e colinas do Oriente Médio em busca de pastagens para suas ovelhas, mas como um povo, uma nação. Foi “caminhando com” Deus, que descobriram que a história tem uma lógica, que vai para alguma direção e é conduzida por Aquele que fez o tempo. Foi caminhando com Aquele do qual desconheciam o nome, que este mesmo Deus se havia revelado com o nome de “Jahvé”, o que, na língua deles, significava: “Aquele que será contigo”. Essa forma de linguagem significa mais ou menos o seguinte: “Aquele que será algo para você na medida em que estiver caminhando com ele”. Um Deus, então, que se faz conhecer pela intensidade e continuidade do caminhar junto. Não caminhar com Jahvé é, para os hebreus, ser um “não-povo” (como recordam o profeta Oséias, 1,6 - 9; e a 1a. carta de Pedro: «vós que um tempo éreis um não-povo hoje sois o povo de Deus» 1,10). Celebrar a festa de Pentecostes significava celebrar a própria liberdade e, contemporaneamente, Deus que se revela durante o caminho, que dá a sua Lei a Israel. A festa começava cinquenta dias após a Páscoa, com a colheita da cevada, e encerrava com a colheita do trigo (Dt 34, 22; Nm 28,26; Dt 16,10). Nesse dia, os piedosos hebreus dirigiam-se para Jerusalém onde era realizada a cerimônia principal da entrega do primeiro feixe da colheita. A possibilidade de colher trigo significava, simbolicamente, a liberdade adquirida e a possibilidade de ter o próprio trigo (é interessante lembrar que a escravidão dos hebreus no Egito começou exatamente por falta de trigo). Os apóstolos também participaram da festa. Da Galileia, para onde haviam retornado e de onde Jesus os havia enviado ao mundo na sua Ascensão, foram em peregrinação rumo a Jerusalém. Aquela peregrinação, porém, não foi como as outras de suas vidas. Se no coração dos antigos pais a alegria da libertação se misturava com o medo do desconhecido da viagem, mais ainda esses mesmos sentimentos se faziam presentes para o novo, pequeno, tímido ”Israel de Deus”: o povo que o Senhor havia adquirido com seu sangue e que começava com aquele pequeno “feixe” de onze pessoas: a colheita da seara do Senhor, o primeiro fruto da semente do Semeador. Qual seria, para esse “novo Israel”, a Igreja do Senhor, o sentido de uma peregrinação a Jerusalém? Qual seria o deserto pelo qual o Senhor Ressuscitado os conduziria? Os antigos pais tinham Moisés à sua frente, mas o que estaria à frente dos apóstolos, para onde iriam dirigir seu olhar? Perguntas sem respostas. Nunca Deus nos dá respostas antes de empreendermos a viagem para a qual nos convida. As respostas se descobrem somente ao longo da mesma viagem: o nome de Deus é “Jahvé” e, sabemos o que significa... Inicialmente (como nos descreve o Levítico 23,15-21), Pentecostes era a festa do agradecimento pela colheita, mas, na época de Jesus, essa festa já estava adquirindo uma nova fisionomia. É dentro dessa nova fisionomia que podemos compreender ainda mais o significado da solenidade que, hoje, nós, cristãos, celebramos. Israel inseriu essa festa como a celebração de um momento de todo o caminho de salvação, carregando-a de um sentido dinâmico, porque o caminho é um “caminhar”, não um fato. Assim, se começou a dar ênfase ao “dom da Lei”, das dez palavras de Jahvé, através das quais Ele faria de Israel o seu povo, um povo que se consagra a Deus progressivamente, à medida em que continua caminhando com Deus. A consagração, porém, não tem seu fim em si mesma, nem apenas se restringe a um ato de culto a Jahvé. Se Deus consagra a si o seu povo é para que essa relação possa explodir na missão: revelar às nações o Nome de Deus, manifestar a todos “quem” é Deus. Sendo assim, é fácil compreender a riqueza de sugestões espirituais e teológicas que a narração dos Atos nos oferece. Lucas deu um novo significado àquela festa, pois não seria mais a antiga Lei a ser o instrumento de consagração, mas a nova Lei: Jesus. Infelizmente, o Senhor havia experimentado sobre si o quanto a Lei é insuficiente por si mesma; havia sentido o drama de quem é violentado pela Lei que, frequentemente, é usada como instrumento de poder, desculpa para interesses, justificativa para se acomodar. Paulo chama essa situação de «maldição da Lei» (Gal. 3,13). “Maldição” porque a lei não é capaz de gerar amor. De fato, a lei nos indica o que é certo e o que é errado e fazendo isso nos dá limites, mas o amor não tem limites entre os quais agir. A regra é capaz de apaziguar a nossa consciência, dizendo-nos qual é a nossa obrigação e até onde vai... mas onde há obrigação não há amor. A festa de Pentecostes estava oferecendo ao mundo uma nova Lei, uma Lei que passaria pela fragilidade dos onze em companhia de Maria, mas seria enriquecida com a potência do mesmo amor que rege as relações entre Deus Pai e Deus Filho: é o Espírito de Santidade, aquele que dá a vida e não deixa o homem definhar em limites. Definitivamente, o Senhor estava levando às últimas consequências a Aliança num decisivo gesto já almejado pelos profetas que sonhavam com uma aliança renovada. Nessa nova aliança, o que contava deveria estar implantado no coração da pessoa, na sua relação amorosa com Deus, no sentimento de perceber-se “na presença da pessoa amada”. Era a aliança no espírito, regida pela sintonia do coração e não por uma leitura interesseira da Lei. «Esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: imprimirei a minha lei em seu coração; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo» (Jer 31,33); e ainda dizia Ezequiel: «Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne» (36,26). Era esse o desejo de Deus: a consagração do coração das pessoas; uma entrega de reciprocidade sem condições, que acontece por causa de um amor experimentado e vivido ao longo de um caminho trilhado junto. A Lei não dá a força de amar; enquanto a relação com Deus for baseada sobre o “certo e errado”, saberemos somente se estamos no “certo” ou no “errado”. Sentir a presença do amor, ao contrário, dá a força de amar. Isso é o que Deus vinha oferecer pelo seu Espírito. O dom do Altíssimo ao seu novo Israel nada mais seria do que sentir definitivamente presente, discreto e suave como o respiro de alguém que nos abraça, o seu Filho, em ato contínuo de caminhar junto, para espalhar o amor de Deus à humanidade. Aquele Pentecostes foi a definitiva Aliança, baseada sobre o amor dado até o sangue. Era a força de amor, a mesma que havia permeado a vida de Jesus, que o Senhor agora estava entregando à sua pequena comunidade, ao Israel da nova Aliança, a fim de que, junto com a Palavra do Pai, aquela pequena comunidade tivesse a força para transformá-la em vida. A partir daí os limites da Lei seriam rompidos pelo poder do amor. Um poder que é compreensível a todos é uma “linguagem” que fala todas as línguas. É como um fogo: enquanto permanece sempre igual a si mesmo é distinto e identificado em cada chama, em cada pessoa, no respeito da história, da cultura, da sensibilidade. Aquele Espírito de amor que moveu Jesus a cada passo, estava pronto para conduzir a nova e última etapa da história do homem com Deus que começava com aquele pequeno “feixe” feito de poucas pessoas. Um novo Israel estava empreendendo a definitiva viagem rumo à comunhão, que é liberdade verdadeira, que é realização plena oferecida a todas as nações. A pequena comunidade foi o meio pelo qual todos puderam e poderão sentir os efeitos do Espírito, o qual, com certeza, é um dom para todos os que estiverem abertos a recebê-lo.      

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