Festa da Santíssima Trindade

Deus amou tanto o mundo, que deu Seu Filho Único, para que todo que o crer nele não morra, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não mandou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é julgado, quem não crê já está julgado, porque não acreditou no Nome do Filho Único de Deus (Jo 3,16-18).
  Com a solenidade de Pentecostes encerramos o Tempo Pascal durante o qual revivemos a origem da nossa fé que é a Ressurreição de Jesus. A partir de Pentecostes começaria para os apóstolos uma nova fase de todo o projeto da Salvação: começava a nova história do Ressuscitado que vive e continua agindo na história dos homens. Começava o caminho lento e penetrante, onde o humano e o divino se fundem, a tal ponto de não poderem mais ser discernidos um prescindindo do outro. Começava o caminho dos “filhos de Deus”, da Igreja que é chamada a santificar o mundo; um “mundo” que sempre precisa reencontrar a sua vocação, a sua identidade e a sua relação com Deus para poder encontrar a felicidade. A Igreja começava a sua missão de “fermento” na massa do mundo, daquela humanidade pela qual Deus julgou que valia a pena «dar» (como diz o Evangelho de hoje) tudo quanto Ele tinha de mais precioso. É um «mundo» que não se identifica apenas com o “cosmo”, ou a “sociedade. É o «mundo» dos homens, aquele “mundo” feito de desejos, aspirações e esforços generosos, sucessos e conquistas que devem encontrar a sua orientação certa para poder brotar em felicidade. É o mundo que precisa de Redenção. É o mundo dos que erram o caminho, dos que não encontram sentido na própria existência; é o mundo dos que fogem da vida para não se deixar questionar por ela... É aquele mundo que nós mesmos desprezamos, aquele mundo que frequentemente julgamos estar distante de Deus... pois é exatamente esse o mundo pelo qual Deus optou. Usando a linguagem própria da Escritura, onde se faz distinção entre “carne” (fragilidade) e “osso” (firmeza), o evangelista nos disse que Deus, o «Verbo», se fez «carne»! Após a Páscoa, Jesus deixou à sua comunidade o compromisso de levar justamente a esse “mundo” dos homens, uma única palavra consoladora: «Deus tanto amou o mundo». Deus amou esse “mundo” que nós mesmos às vezes rejeitamos, tanto em nós mesmos quanto nos outros. A Igreja concebia-se, então, como depositária dessa “palavra” consoladora, depositária da Aliança irrevogável que o Senhor havia estabelecido. Tal palavra não era como tantas outras, era uma palavra viva e capaz de dar vida, de re-criar um homem à beira do desespero: era a presença do próprio Senhor ressuscitado. Anunciar uma palavra - na linguagem bíblica - não é o simples ato de proferir, “dizer que...”; isso porque o valor daquilo que era anunciado, bem como a credibilidade do conteúdo, estavam estritamente ligados à pessoa que falava; assim, por exemplo, não era uma pessoa qualquer que podia fazer o anúncio de uma vitória ou derrota em batalha. “Anunciar” significava “conduzir” as pessoas a “fazer experiência” daquilo que o emissário trazia consigo. Sim, era esta a herança que Jesus havia deixado aos seus: dar a possibilidade, aos que não se sentem amados, de fazer experiência do que isso significa, do que significa ser amado sem ser julgado. E isso somente pode ser feito num lugar concreto, não imaginário ou distante dos dramas dos homens. Um mundo esquivo de paixões, desejos, inclinações e erros, é desumano, não pode falar de Deus aos homens que estão mergulhados em tantos dramas. Mas a Igreja está, providencialmente, carregada de dramas e contradições, problemas e dificuldades, a fim de que possa ser um lugar realmente humano. Só assim poderá anunciar ao “mundo” uma palavra autêntica. Ao desejo de Jesus que a sua comunidade continuasse revelando ao «mundo» o amor do Pai, Deus respondeu com aquilo que lhe é próprio, com aquilo que é capaz de dar sempre a vida. Respondeu com o mesmo Espírito que foi capaz de fazer existir o que não existia, o mesmo Espírito que “ressuscitou Jesus dos mortos” (cfr. Rm 8,11).   A comunidade cristã nasceu no coração do Pai, no seu Espírito, como resposta ao desejo de Jesus. Sua origem está radicada na própria Trindade de Deus. Sendo assim, de algum modo o “ser” da Igreja pode nos ajudar a compreender melhor sua fonte, sua origem, o próprio Deus em sua intimidade.   Olhar o mistério da Igreja para entrever o mistério de Deus. Talvez esse caminho possa nos ajudar. Ricas de significado a esse propósito são as palavras do Concílio: “Assim, a Igreja se apresenta como um povo que deriva a sua unidade da unidade do Pai do Filho e do Espírito Santo” (LG 4). A Igreja é uma só realidade; essa única realidade se constitui como tal por uma característica própria. Se um grupo qualquer ou uma sociedade são regidos por regras criadas em função do objetivo  a que esses se propõem, não é assim no caso da comunidade cristã: ela é o que é porque o seu “ser” é diferente. Nela o que importa não é o objetivo em si mesmo (pois esse já está alcançado pela ação redentora de Jesus), mas sim toda a dinâmica que acontece durante o caminho e que pode gerar entre os membros uma comunhão “análoga” à comunhão que rege a Santíssima Trindade: uma comunhão em que o Amor reina absoluto, soberano. Com certeza, cabe à Igreja “anunciar”, isto é, permitir que todos e cada um dos homens façam experiência da Redenção, todavia o que é mais importante é o fato de ela ser portadora de misteriosas relações que interagem com o fiel e são geradas pelo Espírito de Deus e pela presença do Ressuscitado, vivo. Trata-se das inexplicáveis dinâmicas de amor que operam dento da comunidade a fim de que os homens sejam transformados, sejam mais “homens”, se realizem conforme o projeto que Deus explicitou ao criar Adão. É desse mistério ínsito no ser da Igreja que Paulo fala nestes termos: «Somos transformados em Sua imagem, de glória em glória, porque é o Espírito do Senhor quem realiza isto » (2Cor 3,18). “À imagem de Jesus”! Resposta total ao amor de Deus Pai. São relações que, à imagem da dinâmica que existe no coração de Deus, que é comunhão, reciprocidade sem limite, fundem progressivamente os membros entre si e eles com seu Senhor. Assim sendo, se compreende mais facilmente como, mais do que os eventos que se desenvolvem na história da comunidade, o que importa de fato são as dinâmicas e as relações que são geradas ao longo e dentro dos eventos. A intensidade e a consistência dos seus efeitos são proporcionais à resposta que sabemos dar; cada resposta, acolhida e vivida “gera” algo novo, “cria” a própria comunidade e cada um de seus membros. Em parte, já podemos experimentar a beleza daquilo que acontece em nós e na nossa comunidade quando somos capazes de dar respostas sem opor limites (como é no íntimo do próprio Deus). É este o “penhor”, a antecipação daquilo que acontece “sem algum limite” na intimidade de Deus, em seu “ser”, em sua Trindade. É uma dinâmica viva e vivificante, que une, que “funde” as pessoas sem confundi-las. É um movimento que implica sempre uma decisão em favor do outro e do amor, por isso é plenamente envolvente, pessoal e responsável. A cada “sim” que formos capazes de dar, o Espírito sempre nos sugerirá um outro “sim” a ser dado e assim por diante, até podermos dar uma resposta que seja cada vez mais conforme à resposta eterna que sempre o Filho dá ao Pai. Assim sendo, o cristão é infinitamente solicitado a “sair de si mesmo” e vive  em si aquilo que é próprio do coração de Deus, aquilo que faz do único Deus, um Deus-comunhão, um Deus infinitamente projetado “fora”. Deus se revelou um Deus que é essencialmente uma única, infinita comunhão; “Criando o ser humano à própria imagem e semelhança, Deus o criou para a comunhão. O Deus criador se revelou como Amor, Trindade, comunhão” (CN 9) com essas palavras um recente documento da Santa Sé recordava a ligação profunda entre o “ser” de Deus e o “ser” do homem: ambos definidos por uma análoga dinâmica que é “relação”. Contemplar a Trindade de Deus, as infinitas e delicadas solicitações para o amor respondidas com infinita adesão, não é então algo teórico, desligado do «mundo» dos homens. Olhar para a Trindade nos permite retornar cada dia à nossa origem, não perder a nossa identidade; nos permite aprender a valorizar tudo quanto acontece na nossa frágil e forte comunidade. Apontar ao alto, ao infinito da resposta criadora do amor, com certeza, irá manter mais vivo em nós o significado da nossa vocação de homens.

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